quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Depreciação Cambial é Mesmo a Chave do Crescimento? (Parte 2)


Esse artigo é uma continuação de um trabalho que consiste em um artigo científico demonstrando que a depreciação cambial não é uma política favorável como se tem dito.
Iniciamos com uma postagem do subitem que disserta sobre como a depreciação afeta os preços de uma dada economia, daremos continuidade com a postagem dos subitens que relatam sobre como a desvalorização cambial afeta a população e a distribuição de renda.





Efeitos da desvalorização na população
Os efeitos da desvalorização cambial, como os efeitos de qualquer subsidio, podem ser muito vantajosos para o setor exportador, mas esses benefícios se limitam a esse setor e, muito pior do que isso, esses benefícios acontecem em detrimento do bem estar da população em geral.
Quando há uma desvalorização cambial realmente há um aumento nas exportações, porem vale observar que isso é um efeito de curto prazo. Com o aumento das exportações haverá uma maior demanda pela moeda do país que se utilizou das políticas de desvalorização cambial, isso faz com que a moeda local se aprecie de novo fazendo com que esse aumento das exportações devido à desvalorização cambial se cancele. O governo pode continuar com a política de desvalorização comprando moeda estrangeira e emitindo moeda local. Dependendo de quão longe dure essa política um efeito certo é a inflação gerando mais malefícios para a população em geral.
Para grande parte da população que não trabalha com o setor exportador, políticas de desvalorização cambial geram uma queda no poder de compra. Com uma moeda forte a população tem maior acesso a bens estrangeiros de maior qualidade que geram um aumento no padrão de vida em geral, com a desvalorização cambial esses bens ficam muito mais caros e muito menos acessíveis fazendo que a população tenha seu poder de compra reduzido. Vamos para um exemplo:
Em julho de 2011 um dólar valia R$ 1,54. Isso significa que um brasileiro que ganhava um salário de R$ 3000 tinha um poder de compra de US$ 1.948. No dia 27 de novembro de 2013 o dólar fechou a R$ 2,32, ou seja, um brasileiro com um salário de R$3000 reais hoje tem um poder de compra de US$1293 o que significa muito menos acesso a produtos estrangeiros. Juntando isso a diversas tarifas de importação seu poder de compra é ainda menor.
Além do problema com o menor acesso a bens estrangeiros também existe a questão de menos produtos no mercado interno. Com a desvalorização do cambio é muito mais interessante para um produtor exportar seu produto ao invés de vender no mercado interno, isso faz com que gere uma menor oferta de produtos no mercado interno e consequentemente maiores preços. Em alguns casos o consumidor é “obrigado” a consumir produtos “importados”, mas que são produzidos em território nacional e acabam saindo do país devido à atratividade de se exportar.
Exemplificamos os efeitos de uma política de desvalorização utilizada apenas por um curto período de tempo, se essa política for utilizada por um tempo mais prolongado os efeitos são ainda piores na população em geral. A inflação acaba se tornando um problema devido à impressão de moeda local para se comprar moeda estrangeira e assim manter o cambio desvalorizado, isso agrava ainda mais o problema de redução do poder de compra além de diversos outros malefícios que uma alta inflação pode gerar.
Com isso vemos que desvalorização cambial é uma política que beneficia temporariamente um setor especifico, onde normalmente tem um lobby muito grande, e não trás benefícios para a população em geral. Tem se a ideia que a desvalorização cambial é uma política benéfica para uns e neutra para o restante, quando na verdade ela beneficia poucos e acaba prejudicando uma grande parte da população.

Efeito da inflação de moeda na distribuição de renda
Antes de iniciar o assunto, é importante especificar neste tópico que quando se fala em inflação de moeda, na verdade o que se quer dizer é aumento na base monetária de um país. O aumento generalizado de preços é apenas uma consequência deste ato.
Os temas inflação de moeda e depreciação cambial estão intimamente ligados, pois uma das principais ferramentas para se depreciar uma moeda (artificialmente) é inflando a oferta monetária para assim aumentar a oferta de moeda nacional e diminuir seu valor, ou até mesmo comprar dólares (moeda usada no comércio mundial), diminuindo sua oferta, aumentando a oferta de moeda nacional, o que gera o mesmo efeito, aumentando seu valor e nossas reservas intercambiais. Mas, quais são as principais consequências dessa política? Uma das diversas é justamente agravar o efeito da má distribuição de renda, efeito esse que a maioria dos governos tentam evitar.
Mas, como isso acontece? O ato de inflacionar a base monetária consiste em imprimir dinheiro e jogar na economia. Porém, essa injeção precisa começar por algum lugar, não tem como inserir esse valor de uma só vez de modo igualitário a todos. Usaremos nesse tópico um exemplo prático para facilitar o entendimento: Inflação monetária para custear uma guerra.
Quando o governo quer custear uma guerra, poderá fazê-la de duas maneiras, através de aumento de tributos ou inflação de moeda. Obviamente, aumentar tributos para financiar uma guerra não será bem visto pela população, além de trazer efeitos maléficos em curto prazo. Logo, o governo optará pela impressão de moeda.
Ao imprimir uma boa quantidade de dinheiro, o mesmo injetará diretamente nas indústrias bélicas, e os primeiros a receber esse dinheiro recém-impresso serão as indústrias de armamento e seus funcionários. Obviamente, os negócios prosperaram e seus proprietários irão auferir maiores lucros, não apenas em termos de aumento de dinheiro em seu poder, mas principalmente por tê-los antes dos reajustes de preços. Agora os proprietários dessas indústrias tal como seus funcionários terão um poder de compra maior, e melhoraram seu padrão de vida. Estes consumirão mais produtos de seu interesse o que também fará esses vendedores lucrar. Até ai, os efeitos se apresentam benéficos, os proprietários e funcionários da indústria bélica prosperam e aqueles que vendem aos mesmos, como os restaurantes ao redor das indústrias e etc. também passam a prosperar. Este efeito faz com que os proprietários dessas indústrias clamem por inflação de moeda, pois se beneficiam com essas políticas.
A partir desse momento se iniciam os problemas, os setores que receberam esse dinheiro primeiro, no nosso caso hipotético as indústrias bélicas e setores diretamente ligados a elas, se beneficiam com essa inflação de moeda e agora possuem maior poder de compra, porém, ao consumirem, começam a fazer com que esse dinheiro circule e corrija os níveis de preços, que agora irão subir. Ao subir os níveis de preços, os setores que não estão ligados aos demais setores terão que reajustar seus salários, porém, esse reajuste virá após o aumento de preços, prejudicando-os.
O exemplo que está sendo usado é o de uma indústria bélica por ser mais fácil seu entendimento, em termos gerais quem se beneficia com essa política são os banqueiros e grandes empresas. Os grandes empresários são beneficiados com crédito subsidiado pelo aumento da base monetária, porém os últimos a receberem reajuste em seus salários será o povo da base de produção, os assalariados em geral, que serão obrigados a arcar primeiro com aumento de preços para depois receber seus reajustes de salário. Em casos específicos pode até ser que parte dos trabalhadores com menores salários sejam beneficiados, no exemplo citado, os trabalhadores de indústrias bélicas, mas, na grande maioria, os trabalhadores receberão seus aumentos após o aumento de preço, onde toda uma estrutura acima já se aproveitou dos aumentos de dinheiro a preços baixos, aumentando assim o efeito da má distribuição de renda.
Além do mais, quando a população nota que os preços estão subindo desenfreadamente, tentem a aumentar seu consumo, uma vez que passam a ter medo que o preço se reajuste e seu dinheiro perca valor, esse efeito é conhecido por “Inércia”, que pode agravar ainda mais os efeitos citados.
Se levarmos mais afundo, em um cenário de ampla inflação, se torna mais favorável ser devedor a credor, uma vez que a queda exacerbada no poder de compra tende a diminuir a dívida real. Como há uma seca de credor e um aumento de juros, vê-se diminuído os investimentos e quem sofre é a produção, o que também aumenta os efeitos negativos.


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